
A obsessão pela eficiência pode estar a matar aquilo que nos torna únicos, os nossos talentos naturais. Em alguma altura isso vai aparecer, tal como quando não trabalhamos os músculos.
E se a Inteligência Artificial, com toda a sua sedutora certeza, nos estiver a fazer esquecer de pensar pela nossa própria cabeça? Ou escrever pelas nossas próprias ideias? Isto porque, simplesmente, não temos tempo, com todos os nossos afazeres diários. Vivemos numa era de sistemas, automação e expectativas de respostas instantâneas.
Sendo assim, sugiro que crie sistemas que nos permitam desenvolver os nossos talentos. Pense primeiro, antes de ir a correr para a IA, aponte os seus pensamentos e ideias em bruto. Conheça-se a si próprio.
No mundo do trabalho, existem pessoas com tipos de inteligência diferentes. Se eu insisto que uma pessoa criativa viva e trabalhe 100% do tempo numa linha de produção, sem espaço para respirar, vou anulando aos poucos aquilo que é o seu talento natural: a criatividade.
Por outro lado, quando numa equipa tenho uma pessoa lógico-matemática, cujo ponto forte é a organização do trabalho e quero, à força, que ela seja criativa, preciso de lhe dar as condições e um espaço seguro para ela poder arriscar, exprimir-se e navegar águas desconhecidas.
Como profissional de Marketing e formadora, tenho vindo a dedicar cada vez mais tempo à Inteligência Artificial. Uso IA diariamente para materializar ideias mais depressa. Vejo clientes e formandos a usá-la como bengala: não escrevem uma linha sem perguntar ao ChatGPT ou ao Claude. Isso dá-nos a sensação que, com a IA conseguimos fazer tudo. Conseguir até conseguimos. E a qualidade do trabalho que gera a conexão humana?
Corremos o risco de perdemos algo essencial: a nossa voz, a nossa capacidade de arriscar, de errar, para criar algo verdadeiramente nosso e que sirva o nosso cliente da melhor forma.
Nas minhas formações tenho sempre momentos práticos em que peço aos participantes que escrevam três linhas sobre o seu negócio. O que noto é que cada vez mais, as pessoas optam pela Inteligência Artificial para as mais pequenas tarefas de escrita… e de pensamento.
Se um dos seus talentos for a criatividade na escrita, conceda-se tempo para criar sem recorrer logo a ferramentas de Inteligência Artificial Generativa e a fórmulas feitas de copywriting. Não mate o gosto pela escrita como forma de expressão pessoal.
Sou só eu com esta sensação, de que os textos soam todos iguais?
Vejo isto a acontecer em campanhas de LinkedIn, newsletters, websites. Tudo igual. O mesmo tom, as mesmas estruturas, os mesmos emojis estrategicamente colocados. A IA democratizou a capacidade de produzir conteúdo, mas também nos deu o maior risco de todos: o da indiferenciação.
O pensamento estratégico humano faz mesmo muita falta. As ferramentas mostram-nos dados, mas não nos dizem o que fazer com eles. Continua a ser preciso perguntar:
O que motiva as pessoas a comprar as nossas soluções? Que resultados gostariam de alcançar? O que mais desejam?
Quais os canais que nos trazem mais leads?
Quais as fontes que nos estão a trazer mais vendas, de facto?
As pessoas conectam-se com outras pessoas. As máquinas ainda não sabem traduzir emoções e sentimentos em palavras escolhidas ao milímetro.
A IA dá-nos respostas rápidas e uma sensação conveniente de segurança. É como aquele vendedor muito bem vestido e convincente que nos diz tudo aquilo que queremos ouvir, para acabarmos por lhe comprar algo.
É por isso que a estratégia é, sobretudo, clareza. É saber potenciar os seus pontos fortes, lidar com o FOMO (fear of missing out) e, acima de tudo, pensar e escrever pela sua própria cabeça. Isso, nenhuma máquina faz por ti.
Conteúdo autêntico é mesmo isso: ousar ser quem é, com uma mistura de saberes e experiências únicas, e embalar o conjunto da melhor forma possível.
Faça o inventário dos seus talentos e não se esqueça de praticar.
Sente que tem espaço para usar os seus talentos naturais no dia-a-dia, ou está preso numa engrenagem que não lhe dá espaço de manobra? Partilhe comigo a sua experiência. Adoro estas conversas.




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